diário (11)

Pepetela, 12 de Agosto

Aventurei-me, pela primeira vez, nas páginas de um livro de Pepetela. E foi entre as linhas desse livro que, pela primeira vez, encontrei saudades de Angola. De Massangano, sobretudo, mas também da M’Banza Congo que não visitei. Massangano foi chão de muita história, de intrigas e desterros, de lutas, fugas e cárcere. De refúgio e de reconquista. O abandono a que foi votado entretanto, mais não fez do que adensar o carácter lendário daquele povoado, construído na confluência do mítico Kwanza com o Lucala. A Massangano fui uma vez, e em boa hora. Para M’Banza Congo faltou-me tempo. Queria ter chegado ao rio Zaire, fosse ali, na velha São Salvador do Congo, fosse junto à sua foz, no Soyo. Queria ter subido a costa para além do Dande, passar Ambriz, N’Zeto e, quem sabe, ir mais além, atravessar território hostil, chegar a Lândana e daí adentrar a floresta do Maiombe. Faltou-me o tempo, sobra-me a saudade. Sobram-me as palavras de Pepetela, sobra-me a certeza de que voltarei a Angola.

Tondela,  13 de Agosto

Quis o destino que, no dia em que o Benfica se estreia na Liga Portuguesa, esteja eu longe. Demasiado longe de Tondela, da Tondela onde estudei, do Colégio de Santa Maria onde pela primeira vez  decidi defender uma baliza. Ou tentar, pelo menos. Demasiado distante do campo onde me estreei num jogo de futebol a sério, a doer, a eliminar. Ali, precisamente no campo que o Benfica mais logo pisará e de onde se avista, ao longe, a Serra do Caramulo. A essa hora estarei eu longe, olhando essa outra serra, a do Curral, esperando ouvir os golos de Lisandro e de André Horta, esperando saber do bom filho que retorna a casa ou da saída do Capitão, talvez sinal do fim de uma era. Esperando saber como se portam os novos laterais, quanto tempo ficaremos sem a nossa estrela maior, ou quando aparecerá finalmente o goleador Grego que tanta falta nos faz. Esperando ver a Serra do Caramulo, esperando aplacar, finalmente, as saudades do meu Benfica.

Carol e Lucas, 14 de Agosto

Conheci Cássia por acaso, num qualquer site de fotografia. Combinámos que nos encontraríamos em Belo Horizonte, por ocasião da minha próxima viagem às Geraes. Assim foi, e pouco tempo depois visitava-a em sua casa, no Belvedere. Conheci então João, marido de Cássia, e Carol, filha de ambos. Anos depois, combinámos um outro encontro, nas margens da Pampulha, onde fotografaríamos juntos uma amiga, bailarina talentosa que posaria para nós. E foi aí, na Pampulha de Niemeyer, que conheci Jussara, Cybele e Ricardo. Ontem reencontrei-os a todos, no casamento de Carol e de Lucas, onde me senti  acarinhado e bem-vindo, recebido como se recebe família. Não conhecia Lucas, mas fiquei com a certeza de que mais encontros virão, na Pampulha, na Praça da Liberdade ou num qualquer restaurante ou lanchonete de BH. Ou nas bancadas do Independência até, onde, estou certo, um dia o encontrarei, apoiando o nosso Galo.

@NossaLíngua, 15 de Agosto

Não foi a primeira vez que vi uma fotografia minha impressa num livro. Foi a primeira vez, no entanto, que me senti orgulhoso por tal, imensamente orgulhoso por ver três imagens minhas seleccionadas para, em conjunto com outras 97, formar o belo projecto @NossaLíngua. Feliz por me ver entre talentosos fotógrafos como o @jessartes ou a @titaponte, @agamoto ou @zeosor. Feliz por isso, mas feliz também pelo facto do livro me ter chegado às mãos via Helê, que me representou no lançamento do mesmo, meses atrás, na cidade maravilhosa. Mais feliz ficaria, claro, se a entrega fosse pessoal e acompanhando um abraço, mas os correios cumpriram dignamente a tarefa. Fica faltando aquele abraço.

diário (10)

 

 

Navegar é preciso…

Teria uns seis anos quando ouvi pela primeira vez a frase. Lembro-me do vinil no velho gira-discos, lembro-me do sotaque Brasileiro que ecoava nas grandes colunas de madeira, lembro-me da sala do Sr. Almeida, da reprodução de Guernica sobre o sofá, do relógio de parede com belos pêndulos marcando o ritmo da casa, lembro-me até do enorme aquário cheio de belos e coloridos peixes. Mas lembro-me sobretudo das palavras: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Não sabia então quem as cantava, nem tampouco conhecia Pompeu ou Petrarca. Mas, como Pessoa, quis para mim o sentido da frase. Os anos passaram e, apesar de não ter voltado a ouvir a voz de Caetano cantando “Argonautas”, a frase não mais deixou de navegar comigo, qual lema de vida, qual mote de caminho. Não voltei a escutá-la, entretanto, por anos e anos, até à noite do passado Sábado, em Serralves. Até ouvi-la desaguar, cantada por Marisa Monte e Carminho, naquele que foi provavelmente o melhor concerto a que algum dia assisti. Naveguei na voz melodiosa de Marisa, contida para não causar tempestades maiores, ou no vendaval possante que é a voz de Carminho. Revivi a emoção de voltar a ouvir aquela frase, vi novamente Guernica sobre o sofá, o relógio de parede, o gira-discos e até o aquário, e Sr. Almeida deleitado mostrando o disco a meu pai. Vi-me a mim, ainda criança, certo de que navegar é preciso.

Gelataria Portuense

Enquanto escrevo estas linhas, o Francisco está algures em Rio Tinto com a Clarinha. Enquanto alinho estas palavras, a Luísa passeia por Lisboa com a Ana. Luísa e Ana são amigas desde a escola primária, mais ou menos ao mesmo tempo que o Kiko e a Clarinha se conheceram no infantário. Ana e Clara são irmãs, filhas da Raquel e do Carlos que conhecemos, por consequência, há muitos anos. Raquel embarcou numa nova aventura e, quando lerem estas linhas, estará atrás do balcão da Gelataria Portuense, servindo os melhores gelados que é possível encontrar na baixa do Porto. De sabores simples, como iogurte ou doce de leite, até aos invulgares abacaxi com basílico ou amêndoa com citrus, todos ostentam a honestidade dos ingredientes autênticos, todos se apresentam com a consistência perfeita dada por uma máquina inventada por um Gelatiere Italiano. Os gelados, servidos em copos e cones são feitos com carinho e acompanhados por um sorriso sincero. E é esse sorriso que, quando terminarem a leitura deste diário, deverão receber na Rua do Bonjardim, entre D. João I e Sá da Bandeira. E que, estou certo, devolverão ao provarem os gelados que ali se fazem. Os melhores de todo o Porto. E arredores.

Abrunhos

Não há vez em que, mordendo um abrunho, não me veja transportado para o Caramulo, não há vez em que, saboreando aquela pequena espécie de ameixa, não me veja no Torgal. O Torgal era a nossa melhor terra, onde cresciam as melhores batatas, de onde vinham as uvas mais doces com que se fazia o vinho. No Torgal existia um tanque de pedra que servia para regar as sucessivas terras, que terminavam mais abaixo, na casa onde morava o ti’Júlio. E, ao lado desse tanque havia um pequeno abrunheiro que, por altura do Verão, se enchia de ameixas pequenas e oblongas. Eram esses abrunhos que uma vez lavados na água do tanque, devorava até à saciedade. A terra não mais foi cultivada, o abrunheiro, creio, jão não existe. Mas é ali, ao Torgal, que regresso de cada vez que compro abrunhos na frutaria da Calouste Gulbenkian, é ali, áquele tanque, que volto de cada vez que mordo a pequena ameixa. É a minha infância que saboreio, ao sentir aquele doce suave dos abrunhos.

Dez

Este “diário”, que começou com a intenção declarada de ser um repositório esporádico de pequenos acontecimentos ocasionais, chega hoje à décima entrada. Vagueou, ao longo destas semanas, por temas mais ou menos pessoais, com mais ou menos audiência, ganhou periodicidade mais ou menos regular, adquiriu um formato mais ou menos estável. Tornou-se num ponto-de-ordem da minha semana, num regresso aos instantes marcantes dos últimos sete dias, transformou-se numa pequena reflexão, num balanço, até. Recebeu “likes”, comentários, simples olás ou palavras escritas, de amigos recentes, de conhecidos de longa data. E isso, mais do que tudo, fê-lo valer a pena. E fá-lo-á continuar, semana após semana, voltando a pontos singulares da minha vida.

diário (9)

Brasil

Faltam 15 dias para voar para o Brasil. Três anos depois voltarei a Minas, voltarei a Belo Horizonte. Faltam 15 dias, e a cada dia que passa surgem convites, sugestões, planos. Um churrasco e um casamento, aniversários e talvez uma ida ao Independência, uma corrida e sabe-se lá o que mais. 15 dias. Está quase.

Restaurantes

Estou a chegar a Santarém, onde se come por aqui? Não conheces nenhum restaurante em Barcelos? Então e Esposende? Já é um hábito: de cada vez que algum amigo precisa de um conselho gastronómico, o meu telefone toca. É público, guardo religiosamente recordações de almoços memoráveis, junto com carinho memórias de jantares felizes. Aconselhar um desses restaurantes a uma amigo é reviver sabores, prolongar cheiros, ser feliz uma vez mais. É voltar lá, ainda que por interposta pessoa.

Casa da Guripa

Gradualmente, Angeiras vai entrando no roteiro gastronómico do grande Porto. O pequeno núcleo piscatório tem visto nascer restaurantes cuja especialidade é o fresco peixe que ali chega, à praia, a escassos metros. Ontem foi dia de experimentar a Casa da Guripa, com os seus percebes que recordarei por muito tempo, com a sua vista sobre o por-do-sol sobre o Atlântico, as ameijoas ou o robalo. Adianto-me desta vez, e sem que ninguém tenha perguntado deixo aqui o conselho. Passando perto de Angeiras, não há como perder, passando longe, vale o desvio.

Marisa Monte

Depois de ter perdido o concerto de 1991, no Coliseu do Porto, falhei sucessivamente as oportunidades que tive de vê-la ao vivo. Todos os concertos que entretanto se foram sucedendo, traziam junto um qualquer impedimento, pequeno ou de monta, mas sempre um impedimento. Conspiração certamente, conluio, maldição que terminará hoje, mais logo, quando ouvir finalmente a voz de Marisa Monte, essa voz pela qual me poderia apaixonar perdidamente. Terminará com estrondo, nos belos Jardins de Serralves, terminará quando a essa tão desejada voz se juntar essa outra de Carminho. Afinal, talvez a sucessão de desencontros anteriores tivesse como objectivo juntar todos os ingredientes para uma noite perfeita. O local e a voz convidada, a data e a companhia. Em Serralves, mais logo.

31 de Julho

Horas depois do concerto cumprir-se-ão 23 anos desde essa remota manhã em que saímos da Rua de Costa Cabral em direcção à Foz, para ir buscar a Conservadora que nos iria casar. E daí para a breve cerimónia na Conservatória do Registo Civil, na Rua de Sá da Bandeira. Um almoço com a família num restaurante em Cedofeita, onde voltamos até hoje. E fazer as malas para rumar a Vila Nova de Milfontes. Depois disso, dias e dias, meses e anos, dois filhos que ficam com o melhor de nós, apenas o melhor de nós. Tempos luminosos e tempos sombrios, dúvidas que se esfumam, certezas que perduram. E a maior delas, das certezas, é a de que repetiria aquele dia, o último de Julho de 1993. Mudaria muitos outros, entretanto. Mas nunca aquele dia. E nunca o dia de hoje.

diário (8)

Zarco

O Francisco foi aceite na Escola Secundária Gonçalves Zarco, a velha Escola Industrial, posteriormente Escola Secundária nº 1 de Matosinhos. Como eu, iniciará ali o seu 10º ano. Como eu, entrará por aquele portão, subirá escadas, descerá ao pátio, fará amigos que se manterão por toda vida. Como eu fiz.

Maratona fotográfica

E o melhor deste dia não foi, como já esperava, a fotografia. Foi, isso sim, o reencontro com a minha infância, foram os vários reencontros que encheram a jornada.

Reencontro com o Museu do Caramulo que, por muitas vezes que o visite, não cessa de me fascinar, de me surpreender. E, entre todas as obras, de entre todas as salas, acabo sempre por parar em frente ao quadro “As Mêdas”. É assim desde a minha primeira visita, ainda criança. Sim, habitam nas suas paredes Picaso, Vieira da Silva, Dali, e até Amadeo. Povoam as suas salas raras tapeçarias, relíquias em porcelana, belas peças de Arte Sacra e de mobiliário. Tudo em volta de um cláustro oitocentista, salvo da ruína algures no Satão para ser transplantedo como coração do Museu. Há tudo isso, mas é em frente às mêdas pintadas que me detenho. Que me detive, esquecendo fotografias, maratonas e concursos.

Reencontro com o Grande Sanatório, de portas abertas como nunca o havia visto. Mostrando restos da majestosidade de um passado recente, exibindo, quase orgulhoso, a decadência e abandono do presente. Foi no “Grande” que o meu pai trabalhou por três anos, algures na década de 50, o que o promoveu a guia informal da visita. E, com olhos brilhantes, foi esclarecendo dúvidas dos participantes. Que aqui era o gabinete do Dr. Abel, ali os consultórios, mais além a radiologia. O velho cinema e a grande cozinha, as câmaras onde esterilizavam a louça com clorofórmio, a despensa onde se guardavam vinhos, a biblioteca e a sala de jogos. Os quartos de terceira, mais baratos, ou de primeira, verdadeiras suítes de hotel. Quantos m’reis se pagavam por cada um, e histórias de quem, pagando um quarto de terceira, acabava hospedado em primeira. E as varandas de cura, as cobaias, o único elevador do Caramulo. Tudo isso resgatado a um passado próximo, e revivido por escassas horas.

Running

Ainda não baixei dos 30 minutos aos 5Km, tampouco fiz os 10Km em 1 hora. Mas saí de casa às 7 da manhã, para correr até à Praia de Matosinhos, e daí até ao Senhor do Padrão. Esqueçam os tempos, ritmos ou distâncias. Essa é a verdadeira conquista da semana.

Santa Margarida

Mais logo rumarei ao Caramulo para mais uma festa de Santa Margarida. Não faltarão o caldo verde e as minis, a quermesse e uma montanha de prémio inúteis que carregaremos  felizes para casa, no final da noite. A banda filarmónica, a procissão e a missa de Domingo na pequena Capela de Santa Margarida. Faltará, no entanto, o Luís “carteiro”. Faltará à missa, como faltará à procissão, faltará o seu metro-e-meio e o seu fato impecavelmente aprumado. O Luís, também chamado “Pinheirinho”, quase anunciava a procissão, de tão à frente que ia, abrindo os caminhos da aldeia que tão bem conhecia. Esses caminhos onde o encontrava, ao Luis, sempre que passeava no Caramulo. E encontrava-o com aquele sorriso e boa disposição que herdara da mãe, a Ti’Ana, chamando Pedrito ao Francisco, como a sua mãe me chamava Fernandito, muitos anos antes. O Luís não estará na procissão do próximo Domingo. Eu estarei, com pena de não o ver ali.

diário (7)

Futebol, o nosso

Ganhámos. Mas, mais do que vitória houve poesia. E, mais do que a vitória, interessa-me a poesia deste Euro. Interessa-me a palavra dada de um homem sério, interessa-me que se tenha cumprido, apesar de poucos acreditarem nela. 23, não mais. Interessa-me que tenha havido um vilão e um herói caído. Ignomínia e justiça que tarda. Mas que não falha, porque não falhou o proscrito, o patinho feio elevado a herói nacional. E houve festa, finalmente, lágrimas e mais lágrimas, de dor e de alegria. Tivémos por fim o dia de glória que há tanto nos escapava.

Futebol, o meu

Com o tempo, a normalidade vai regressando às noites de segunda-feira. Com o tempo, vou retomando o meu futebol, ocupando o meu lugar na baliza. Com o tempo regressaram, finalmente, os frangos. Três. A conta que Deus fez.

Brexit

Os dias passam e, vai-se percebendo, ninguém parece querer realmente a saída. Saiu  o pai do desastroso referendo, Cameron, garantindo, antes de passar o testemunho, estar a tentar zelar pelos direitos dos “emigrantes” Europeus em terras de Sua Majestade. Estamos descansados, pois. Nós, os Europeus.

Goldman

Barroso, anos depois de virar costas ao governo do país, não hesita agora em servir a dois amos, dedicando-se a um, desprezando o outro. E não é a Europa, o alvo da sua bem remunerada dedicação.

Sanções

Afinal o bom aluno merece sanções. Ao que parece, e ao contrário do que foi dito ao longo dos últimos quatro anos, a receita imposta não foi suficiente, falhando os prometidos objectivos. Por isso se justificam as sanções. A menos que o bom aluno volte, e se comprometa a seguir a mesma receita que nos levou às sanções. Ah, afinal não são sanções, são “incentivos”. E até podem ser sanções sem castigo, multas de valor simbólico, sem valor até. Um pouco como o clássico “é proibído, mas pode-se fazer”, agora em versão Europeia.

Europa

O caminho Europeu de união e integração parece, a cada dia que passa, mais sinuoso. A Europa, do Atlântico aos Urais, parece cada vez mais distante, mais à deriva, qual jangada de pedra rumo ao desconhecido. Rumo à órbita de Júpiter. De onde, afinal, talvez nunca tenha saído.

Sanzala

“O café da D. Fernandinha? Está pronto, claro, 3 quilos de um, 3 quilos de outro”. Sim, ainda há casas no Porto, em que, por muitos anos que passem, seremos sempre o filho da D. Fernandinha, e há nisso conforto imenso. Há casas no Porto em que se vendem cafés de todo o mundo, moídos na hora, misturados a preceito para todos os gostos. Para usar no leite, para beber simples, sabores intemporais que me levam até à infância, embalado nesse cheiro único de café da Sanzala. “Boa viagem e cumprimentos para o Caramulo”. Há casas de onde se sai com um sorriso nos lábios. E com cheiro de felicidade no ar.

 

diário (6)

Cozinha

Depois dos memoráveis jantares de Angola, voltei a cozinhar para amigos. Voltei a todo aquele processo, imaginar a ementa e ir às compras, cozinhar de forma a que tudo estivesse pronto mais ou menos à hora estimada e ainda ter tempo para conversar, depois. Era assim num passado pouco distante, era assim num outro hemisfério. A noite de Sábado, reservada para memoráveis jantares, começava no jantar do dia anterior,  na noite de sexta-feira. Aí se alinhavavam os planos para o fim-de-semana, as inevitáveis e semanais escolhas. Cabana 72 ou Casa Viana, Flat Panorâmico do Kinaxixe ou Apartamento Premium do Zé Pirão. Bacalhau espiritual ou moqueca de camarão, carne assada com tutu e couve mineira ou sopa seca, spaghetti carbonara com ou sem peito de frango. Quem leva o vinho, quem vai às compras. E que praia escolher para Domingo. Não houve, desta vez, jantar de sexta nem praia no Domingo. Mas houve cocktail de champagne com tangerina, bacalhau espiritual e mousse de “oreo”. Houve boa companhia, e conversa agradável, noite dentro. E houve, sobretudo, a vontade de repetir. Amiúde.

Angola

Resolvi finalmente dar algum sentido às fotos que trouxe de Angola, decidi finalmente, separá-las por temas, rever imagens esquecidas, dar outras roupagens às eleitas, dar ordem possível às centenas de imagens que fui captando nestes dois anos. Tal tarefa, sobretudo o facto de ser feita depois do regresso, o facto de ter algum tempo de permeio, vai-me dando melhor perspectiva da monta desta aventura por terras da Raínha Ginga. Talvez tenha sido a minha tropa tardia, talvez tenha sido a oportunidade de uma vida, a chance única de conhecer um continente singular, de calcorrear uma terra que povoa como poucas o imaginário Português. Espero que as fotos lhe façam justiça.

Running

Depois de anos e muitos quilómetros de bons serviços, chegou a hora de trocar as minhas sapatilhas de corrida. Teria de bom grado comprado umas exactamente iguais se não fosse essa uma impossibilidade. Todos os anos as sapatinhas são substituídas, e às Pegasus 28 sucederam-se, imagino, as 29 e 30, até às 31 que encontrei. Não se parecem nem um pouco com as minhas velhinhas, pelo que não me restou outro remédio senão procurar um qualquer modelo que me satisfizesse. E de súbito várias marcas, dezenas de modelos, deste ano e do ano passado, para trail ou estrada, para ritmos baixos ou elevados, distâncias curtas ou longas, com mais ou menos amortecimento, pronador ou supinador. Para corredores leves ou pesados. Vi um sem-número de testes e comparativos, muito mais do que quando comprei o meu carro, até chegar às que me pareceram apropriadas e, sobretudo, parecidas com as velhinhas que tantas saudades me deixam. Depois da primeira corrida parece-me que escolhi bem. Ou que, no fundo, são todas iguais.

Tribos

Sempre fugi a tribos, dos jipes às corridas das bicicletas à fotografia. Daquela sensação de manada e da inevitável sensação de obrigação, de seguidismo. Passeios e encontros fotográficos causam-me estranheza. Fotografar é um acto individual e profundamente solitário. Introspectivo. Fazê-lo em rebanho parece-me até um pouco pornográfico, uma devassa desconfortável. Apesar disso, no próximo sábado participarei na maratona fotográfica da FNAC intitulada “A essência do Caramulo”. Vou fazê-lo com o meu pai e, sinceramente, fazer boas fotografias é coisa que não me preocupa, é o que menos me motiva. Passar um sábado a dois, pela serra que o viu nascer, a ele, pela serra que me viu crescer, basta-me.

Selecção

Passámos.

diário (5)

São João

Passada a grande noite, lançados os balões, manda a tradição que no dia 24 de Junho o almoço seja tardio, e na ementa não falte cabrito. E, para cumprir a tradição, não consigo imaginar melhor restaurante do que a Abadia. Não me lembro com rigor da primeira vez em que ali entrei, mas lembro-me de, sempre que “Porto” e “Restaurante” apareciam na mesma frase, “Abadia” não faltava. Normalmente “esparregado” apareceria a seguir, normalmente pela boca da minha mãe. Assim foi, e ali, na Abadia, o mais tradicional dos restaurantes do Porto, houve esparregado, cabrito e arroz de forno. E memórias, de terem estado ali, os dois, Fernando e Fernanda, meu pai e minha mãe, comemorando um ano de casados. Há 50 anos.

Abadia

Há dois anos, há dois exactos anos, estávamos sentados naquela mesma mesa, com Mónica e Nina, Leandro e Adriana. Com Charlotte e Elisabeth. Semanas antes, com pouco mais de 18 anos, aterraram em Paris, vindas de Montreal. Compraram duas bicicletas e, de mochila às costas, fizeram-se à estrada, acampando onde era possível, viajando ora de comboio ora pedalando, até chegarem ao Porto, a tempo da mais bela noite da Invicta. Hoje, dois anos volvidos, percebo pelas suas fotos que Charlotte está algures no deserto de Gobi, gozando da hospitalidade de uma família nómada, atravessando a Mongólia depois de ter feito o mesmo no Japão. A seguir há-de embarcar no Transiberiano para atravessar a Rússia. Se “temerária” foi a palavra que me ocorreu para adjectivar a viagem de há dois anos de França a Portugal, para descrever esta aventura só me ocorre “inveja”.

No sofá

Eis-me vendo o Portugal-Polónia sozinho, no sofá de casa. Francisco foi com os colegas assistir ao jogo no meio da multidão em frente ao ecran gigante do Edifício Transparente. Luísa passou o dia a estudar  em casa de uma colega, aí ficando para ver o jogo. Sinais dos tempos, sinal de velhice. Felizmente era a Selecção, não o Benfica, ou estaria agora deprimido. E sozinho

Selecção

Passámos.

diário (4)

Alcatra

Li sobre a alcatra do Joel e, acto contínuo, lembrei-me de um jantar no Bairro Alto, lembrei-me da primeira alcatra Terceirense que comi. Fê-la o próprio Joel, para um belo grupo de amigos. Para o Gangue. Anos passaram e nós mudámos. Todos. Até o Gangue, em si mesmo, mudou. Mudámos, e apesar disso, apesar das mudanças continuamos a manter o contacto, porventura mais esparso, certamente diferente. Mas não mudou, felizmente, a vontade cada vez mais difícil de satisfazer, de ter uma mesa e companhia nas minhas idas a Lisboa. Com ou sem alcatra, mas com aquela companhia.

Renovação

Assinei a ficha de inscrição do Francisco para a nova época do voleibol. Será jogador da equipa de Cadetes da Académica de São Mamede. Renovou-se o compromisso, sem cerimónia, apresentação ao sócios, sem comissões nem cláusula de rescisão. E sem prémio de assinatura. O prémio devido recebê-lo-á o Francisco em suaves prestações, a cada treino, depois de cada jogo. O prémio, no fundo, é fazer parte de uma equipa, é estar entre amigos.

Selecção

Passámos.

São João

As mais velhas recordações que tenho de uma noite de São João são as do lançamento dos inevitáveis balões. De um lançamento em particular, há mais de 40 anos. A memória leva-me até a Pereiró, velho bairro tradicional do Porto, até ao pequeno terraço por cima da garagem do Sr Almeida. Nele habituara-me a ver um estendal, e um estendal apenas. E habituara-me a ver nele, no estendal, a única serventia desse local.  Naquela noite, porém, foi lugar para elaborado ritual, o de iluminar a noite de São João, fazendo subir aos céus balões de papel coloridos. Para tal havia que centrar milimetricamente a pequena tocha de parafina, endireitando ou curvando a frágil armação de arame que a suporta, de acendê-la, à tocha, de esperar cuidadosamente que o ar enfunasse o papel colorido, de soltar finalmente o balão, no momento certo, imprimindo-lhe uma subtil rotação com as mãos. Depois o silêncio solene, os olhos postos no céu por largos minutos, vendo o sucesso da empreitada, observando o balão subindo até não ser mais do que um ponto luminoso entre os milhares que enfeitam a noite. Maravilhou-me, tal proeza, a perfeição dos gestos, o cuidado e a sapiência demonstrada pelos lançadores, pelo meu pai. Logo, em Custóias, o ritual será cuidadosamente repetido. A  proeza, sei-o agora, não é de tão grande monta como então supunha, o balão subirá cheio de ar quente, a diferença na densidade do ar interior e exterior explica-o.  É física. Mas os gestos do meu pai serão os mesmos, como se o balão não subisse sem aquela revienga, sem aquele constante pesar do ar quente, sem aquela procura do momento certo. Talvez subisse, sim. Mas não encontraria, algures no espaço, aqueloutro que se aventurou nos céus de Pereiró há 40 anos. Ou mais.

diário (3)

Viseu

Cruzámo-nos no velho Liceu Tomás Ribeiro, em tempos idos. Cruzámo-nos por vias travessas, por interpostas pessoas. Talvez por isso, deixámos Tondela, ambos, como meros conhecidos. Anos mais tarde viríamos a cruzar-nos no facebook. Por vias direitas, já sem terceiros pelo meio. Cruzámo-nos ainda como conhecidos, mas não tardaram encontros vários, almoços no Caramulo à mesa da família, aniversários e concertos na ACERT, queimas do Judas e copos por aí. Somos hoje bons amigos. E, se assim é, devêmo-lo a esse reencontro no éter. Se são animadas as nossas conversas, se são cúmplices  os nossos encontros, se são possíveis, no fundo, devêmo-lo à rede. Agradeço por isso ao Mark o almoço de hoje. Animado, como sempre. Em Viseu, como tantas vezes.

14 de Junho

Faria 105 anos, a minha avó Piedade. Quis o destino que, neste mesmo dia, morresse o padre José Ribeiro dos Santos. Pároco do Guardão durante décadas, durante a maior parte da minha vida, foi ele que moldou a imagem que retenho do que seria um padre de uma qualquer comunidade do interior de Portugal. Nem sempre foi bem visto lá em casa, pendeu sobre ele uma sombra de um passado bafiento tão típico desse Portugal dos anos 50. Mas foi sempre respeitado. Acabou por ser uma figura importante na velhice da minha avó, numa altura em que o passado lhe pesava, e em que parecia buscar desesperadamente absolvição. Visitou-a regularmente até ao fim, quando ela já não saía de casa, visitou-a  mesmo depois de ter deixado a Paróquia. Morreu, com 101 anos, o Senhor Abade. Morreu com ele uma parte do Caramulo da minha infância. Paz à sua Alma.

Gaitán

Confirmou-se o que já se sabia, o que as suas lágrimas no final da taça da Liga deixavam supor. Gaitán vai-se. Parte dele passará a ser Colchonero, vestirá riscas vermelhas, até. Mas a águia já não lha tiram do peito.

Nuno

Nasceu há um mês, o pequeno Nuno, mas só agora desci a Coimbra para o conhecer. Foi uma viagem ao passado, ao quarto onde tantas noites dormi, à vista sobre o verde vale de densa vegetação e misteriosas ruínas, e á vista distante da velha torre da Universidade. Desse passado falta o Nuno, o avô. E faltou, por isso, uma amarelinha do Figueiral para comemorar o nascimento do neto. Faltaram palavras embevecidas e faltou ver o Nuno ao colo do Nuno, risonho e embevecido. Nascido há um mês, só conhecerá o avô, o Nuno, pela nossa voz, pelas  palavras dos que com ele se cruzaram. E não serão poucas, e não serão, sobretudo, de circunstância.

Selecção

Houve bola?

diário (2)

Brian Wilson

Tudo no sítio certo, tudo a seu tempo. Primeiro um prelúdio alegre, preparando a celebração prometida. Finalmente Pet Sounds, anunciado pelo debilitado Brian Wilson. Wouldn’t it be nice. Depois a emoção (minha) com You still believe in me, depois a emoção (dele) quando sentenciava I guess I just wasn’t made for these times. E festa, depois. E foi nessa festa que, enquanto a multidão ondulava, cantando Surfin’USA, alguém saiu a correr em direcção ao mar, de calções floridos e prancha longboard. Nem as vedações do festival seriam capazes de o parar. Terminou, creio, nas ondas junto ao Castelo do Queijo. Talvez ainda esteja por lá, cantarolando  inside outside USA

a horta

Ter uma horta com menos de 1m² deixa pouco espaço para o erro. A hortelã lançou-se em aventura colonizadora, ocupando metade do canteiro onde deviam nascer viçosas alfaces. Os tomateiros, julgando-se pés-de-feijão mágicos, parecem ver no céu o único limite, e os morangueiros, na sua sombra, não se decidem a dar morangos. Ida à feira, reorganização e consequente expansão da horta. Talvez 2m² resolvam problemas de convivência.

futebol

Voltei ao futebol, voltei a jogar futebol um ano depois da manhã fatídica em Talatona. Nesse dia, animado por voltar aos campos depois de uma ausência de quase dois anos, acabaria por romper com grande estrondo o tendão de Aquiles. Voltei ao futebol, ontem, voltei à baliza e, a sensação primeira foi a de não saber já pontapear uma bola, de não conhecer o tamanho à baliza, de não saber pesar distâncias e tempos. De que teria, no fundo, que reaprender tudo de novo. E não será muito. Nunca fui um bom guarda-redes, nunca fui sequer um keeper razoável. E se alguma vez o pensei, foi com a visão turvada pela emoção, pelo amor ao jogo, pelo deleite que é para mim defender uma baliza. Afinal sou apenas mais um gordo que vai à baliza. E que gosta.

Piedade

Faria 105 anos, hoje, a minha avó Piedade.